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INTRODUÇÃO
A escolha desse tema deve-se a experiências
adquiridas e a questionamentos
surgidos quando da ação em espaço comunitário e na rede de saúde pública.
Como fundador de uma associação de moradores há mais de vinte anos, em um
bairro criado com a venda de casas para determinadas categorias
profissionais, e
como fundador de um jornal comunitário, onde se veiculavam antigas histórias
dos
pioneiros da comunidade, pude observar de perto o potencial das comunidades,
suas necessidades e transformações. No treinamento profissional realizado na
prática hospitalar da Especialização em Psicossomática Contemporânea, que
levamos a efeito no Hospital Estadual Carlos Chagas Secretaria Estadual de
Saúde
do Rio de Janeiro, durante o ano de 2002, pudemos observar, de outro lado,
que
grande parte dos adoecimentos que terminam em internações são originários de
problemas sociais.
São situações de vida que em sua maioria não podem ser resolvidas dentro da
esfera hospitalar. Embora os hospitais contem com profissionais de diversas
áreas,
exercendo um trabalho multidisciplinar, as soluções ultrapassam a
competência da
sua ação técnica. As causas das enfermidades são multifatoriais, girando
sobretudo
em torno de educação, alimentação precária, moradia, dramas familiares,
conflitos
judiciais, falta de emprego, trabalho vil e mal remunerado, medo, violência,
enfim
más condições de vida. São problemas de caráter social, que envolvem a
esfera
pública, necessitando, pois, de políticas saneadoras por parte dos
responsáveis em
todos os níveis de governo.
A concepção dos direitos humanos ou da cidadania baseada nas teorias
tradicionais aplicadas no Estado, como o Direito Constitucional,
Administrativo e
Econômico, ainda fica longe de atender à realidade da população. O que se
busca
hoje é uma abrangência do ser, a exemplo da posição defendida pelo jurista Reale
Júnior na elaboração do novo Código Civil, que tem gerado polêmicas até
agora
não resolvidas.
Mostra-se premente desenvolver propostas de intervenção que ajustem vida
individual, coletiva e econômica, para uma saída possível da crise da
sociedade
contemporânea e, conseqüentemente, da crise brasileira, nos moldes da visão
integral de homem do paradigma da Psicossomática Contemporânea, de onde
não se exclui a sua dimensão política, reproduzindo na política pública do
Brasil
os mesmos benefícios auferidos na intervenção do indivíduo quando de seu
adoecimento.
Então, o objetivo da presente monografia é apontar as bases conceituais para
uma proposta de humanização das políticas públicas, como fundamento para a
solução da crise brasileira, assentada no princípio do indivíduo como
unidade
ativa e das comunidades como célula mater do campo desta intervenção, em
visão
sistêmica.
Para tanto, utilizamos pesquisa bibliográfica, para uma análise discursiva
sistêmica das contribuições de vários autores e reportagens, construindo um
diálogo entre vários campos, a partir de um referencial teórico que abarca
contribuições com visões sistêmicas, socioantropológicas, históricas,
filosóficas e
psicológicas, dentre as quais destacam-se Tolstoi, Rousseau, Martin Buber,
Freud,
Adler, Capra, Guarinello, Florestan Fernandes e Chico de Oliveira. Foram
elaborados
três capítulos e a conclusão, como segue.
No primeiro capítulo, “Comunidade: a célula constitutiva do tecido do
Estado, seus conflitos e sua potência”, procuramos situar o cidadão no
espaço e
no tempo, em sua formação societária. Definimos o que significa “comunidade”
e qual a sua função dentro da sociedade, bem como a importância que cada
cidadão tem dentro da mesma. Discorremos sobre a organização das sociedades,
mostrando suas características e dificuldades, assim como as diversas
mudanças
de relacionamentos.
No segundo capítulo, “Visão histórica do Estado: política, democracia e
cidadania”, apresentamos uma visão histórica do Estado em que política,
democracia
e cidadania servem de base ao processo de busca de soluções para antigos e
novos
problemas.
No terceiro capítulo, “Aspectos das Políticas Públicas no Brasil”,
analisamos
as interfaces da crise brasileira com as políticas públicas praticadas, das
quais
historicamente a população encontra-se excluída, em posição de dependência e
submissão.
No quarto capítulo, “A humanização das políticas públicas como fundamento
para a solução da crise brasileira: o indivíduo como unidade ativa no
contexto
social”, abordamos os conflitos do homem sob a ótica de ser que interage com
o meio (comunidade). Abordamos a noção de governo, particularizando o
desenvolvimento do homem e da sociedade segundo uma concepção sistêmica.
Nessa análise, enfatizamos alguns aspectos da política pública no Brasil e
suas
conseqüências para o povo. Utilizamos os fundamentos de totalidade do homem
da
Psicossomática Contemporânea em nossa proposta de humanização das políticas
públicas, com a qual pretendemos contribuir para novos rumos, mais eficazes,
na
busca de solução da crise brasileira. Trata-se de uma proposta de
desenvolvimento
de valores e princípios, inspirada no processo evolutivo das comunidades,
com o
objetivo de levar o indivíduo a abandonar o interesse exclusivo por si mesmo
e
ocupar-se, enquanto cidadão, de um trabalho construtivo com outros,
tornando-se
um membro útil à sociedade, com mudanças em rede, sistemicamente, para todo
o
contexto social.
A conclusão deste trabalho evidencia a possibilidade de tal proposta abrir
caminho para tornar o cidadão uma unidade ativa no processo social, do qual
se
encontra cada vez mais excluído, alijado, alienado, em busca da saúde
individual
e coletiva, do seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento do país,
descortinando cada vez mais modos de interagirmos, conscientes de que o
universo é um todo indivisível, constituindo na realidade uma infindável
rede de
relações.
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